sexta-feira, 4 de abril de 2014

TEMPORADA DO ESPETÁCULO ANJO NEGRO - "PROJETO UM NELSON ANCESTRAL" !

O preconceito racial sobre o comportamento humano e o preconceito racial sobre sua própria cor.
 Na peça Anjo Negro a questão é tratada de forma aparentemente paradoxal. O negro Ismael, por odiar a própria cor, repudia tudo o que possa estar associado a sua etnia - da religião aos hábitos culturais. Sua mãe o amaldiçoa, pois cegou Elias, o irmão de criação branco. Casado com a branca Virgínia, contra a vontade da mesma, Ismael se torna cúmplice da mulher, que assassina os próprios filhos por serem negros. Virgínia sente pelo marido um misto de repugnância e paixão. Ao nascer Ana Maria, filha branca de Virgínia com Elias, Ismael  cega a menina para que  nunca possa ver a sua negritude paterna. Vendo ali o início de uma relação incestuosa, Virgínia, sempre  cumplice do marido, traça o plano final.

“Nelson aponta para a problemática racial em que, certamente, se articulam os subsídios para uma teoria social do Brasil, onde se destaca a violência como fator de base dos fundamentos estruturais do modelo étnico-social brasileiro. A peça explicita a vivência de amor/ódio num casal inter-racial e a ambiguidade diante de sua linhagem mestiça. O estilo poético-realista de Nelson Rodrigues revela, de maneira perturbadora, temas adormecidos no inconsciente. Ele revolve esse universo profundo do espectador trazendo à consciência o que está recalcado e utiliza-se da tragédia para falar do racismo. Algo da ordem do trágico, tal qual é explicitado no drama grego, pode estar muito próximo de nós, se considerarmos que, enquanto humanos, vivenciamos as emoções que o perpassam.”
Encenação
A encenação trabalha com tudo que o personagem Ismael renega: as suas origens ancestrais. Essa recusa foi a primeira ideia de tratamento a concepção do espetáculo.   O  que a encenação faz é explicitar justamente as negações do personagem . Submerge de seu subconsciente o que ele evita, expulsa ou tenta não mostrar para a sociedade. As personagens são violentas entre si, sofrem a violência, vivem-na. Há vinganças recíprocas e intermináveis. Há ódio dissimulado no amor,amor dissimulado no ódio ou tão somente um desejo, que gera violência.

 
Os Coveiros Exus (Naná Sodré e Agrinez Melo) - Foto Diego Melo CRIA S/A


A Tia (Naná Sodré). Foto Diego Melo CRIA S/A

Ismael (Ângelo Fábio). Foto Diego Melo CRIA S/A

O cego Elias - irmão de Ismael- e sua cunhada Virgínia. (André Caciano e Smirna Maciel).Foto Diego Melo CRIA S/A.

Tia e primas (Naná Sodré,Agrinez Melo e Maria Luisa Sá). Foto Diego Melo CRIA S/A

Ismael (Ângelo Fábio).Foto Diego Melo CRIA S/A
Uma poltrona branca simboliza um trono, a imponência   de um rei, mesmo que esse rei se mostre impotente diante do amor e da loucura que o rodeia. Os muros sugeridos no texto estão dentro dos personagens, nada concreto. . . Não se trata de uma casa com características quaisquer. Há “sinais” que configuram uma espécie de sacralização do espaço físico, que indicam se tratar de um lugar não comum, diferente.
A vingança (Smirna Maciel,Agrinez Melo,Naná Sodré e Maria Luisa Sá).Foto Diego Melo CRIA S/A 

O encontro.(Smirna Maciel e André Caciano).Foto Olga Wanderley

O cego Elias (André Caciano).Foto Olga Wanderley

Dentro dessa visão construímos um ambiente degradante, algo isolado, esquecido enquanto ambientação cenográfica. O cenário sem nenhum caráter realista é trabalhado dentro da perspectiva de um ambiente desordenado, esquecido pelo tempo, fechado em si mesmo. Os mínimos elementos cenográficos, estão dentro desse espaço para dar vasão a solidão.  As plataformas, um espécie de trampolim   dão a ideia de desalinho e desequilíbrio dos personagens que vivem sempre a beira do precipício e da loucura. 
Dentro da linha de pesquisa que o Grupo O Poste Soluções Luminosas vem desenvolvendo desde o espetáculo Cordel Amor sem Fim trará um Nelson Rodrigues dentro da ancestralidade, um Anjo Negro dos Exus,  Orixás, Voduns, Eguns, feiticeiras, das alegorias e dos volumes de seus vestuários. As falas e  gestos    assumem o tom grotesco, bem marcado e animalesco. Ora estamos no terreiro, ora dentro, ora fora, ora em local indefinido, entre o estar dentro e fora.



O cego traído (André Caciano, Ângelo Fábio e Smirna Maciel).Foto Diego Melo CRIA S/A

Vírgínia (Smirna Maciel).Foto Diego Melo CRIA S/A


Anjo Negro, peça do grupo O Poste Soluções Luminosas

De 29/03 a 04/05 ( maio) , aos sábados e domingos

No Teatro Barreto Júnior – R. Estudante Jeremias Bastos , S/N - Pina Recife – PE | Fone | (81) 3326-4177

Horário – 20h

Valor – R$ 20 (inteira) e R$10 (meia).

Censura – 18 anos



Um comentário:

Luiz Sebastião Jr. disse...

Espetáculo altamente desconfortável, no melhor sentido da palavra, ou seja, que nos tira de nossa zona de conforto. Recomendo demais!